Quando pensamos em aprendizagem, é comum imaginarmos uma criança diante de um livro, a ouvir uma explicação do professor, a realizar um exercício ou a estudar para uma avaliação. Mas, por detrás de cada uma dessas situações, existe um processo muito mais complexo.
Aprender não consiste em simplesmente receber informação. Entre aquilo que acontece ao nosso redor e aquilo que permanece como conhecimento existe um verdadeiro percurso e, nesse percurso, memória, atenção, emoção, motivação, sono, experiências anteriores e até o próprio corpo participam de uma espécie de grande orquestra. É por isso que compreender um pouco sobre memória pode nos ajudar a olhar de outra forma para a educação.
O que é a memória afinal? E o que ela tem a ver com o processo de aprendizagem?
A memória pode ser entendida como o conjunto de processos que nos permitem registrar, conservar e recuperar informações e experiências. Ela está presente quando aprendemos algo novo, quando reconhecemos uma pessoa, quando nos lembramos de uma experiência ou quando recuperamos um conhecimento que precisamos utilizar.
A aprendizagem, por sua vez, acontece quando uma experiência ou uma nova informação produz uma mudança relativamente duradoura naquilo que sabemos, compreendemos ou somos capazes de fazer. É por isso que memória e aprendizagem estão profundamente relacionadas, mas não são exatamente a mesma coisa: aprender envolve adquirir ou modificar conhecimentos e habilidades; a memória permite que parte daquilo que foi aprendido seja conservado e posteriormente recuperado.
A importância da memória para a nossa vida está justamente nessa possibilidade de usar o que já vivemos para orientar o que fazemos no presente. As experiências anteriores podem influenciar a forma como interpretamos o mundo, reconhecemos situações, tomamos decisões e aprendemos coisas novas. Nesse sentido, a memória não serve apenas para nos lembrar do passado. Ela também participa da forma como compreendemos e lidamos com as situações que nos são apresentadas no dia-a-dia.
O caminho da informação
A informação que chega até nós não é automaticamente transformada em conhecimento. Primeiro, somos constantemente bombardeados por estímulos. Sons, imagens, movimentos, cheiros, palavras, sensações corporais e acontecimentos disputam a nossa atenção ininterruptamente ao longo do dia. Logo, o cérebro precisa selecionar. Podemos imaginar este processo como um grande funil, ou seja, muitas informações entram, mas apenas algumas recebem maior prioridade e avançam para níveis mais profundos de processamento.
A memória sensorial é uma das primeiras etapas desse percurso. Ela corresponde ao registro dos inputs provenientes dos sentidos. Contudo, como dito anteriormente, nem toda a informação que recebemos será selecionada para um processamento mais aprofundado.
Imagine uma criança numa sala de aula, onde há o som da voz do professor, o ruído de uma cadeira, alguém a mexer-se ao lado, a luz que entra pela janela, uma conversa no corredor e inúmeras outras informações acontecendo simultaneamente. O cérebro receberá essa enorme quantidade de informação, mas não será capaz de dar atenção e viabilizar um processamento mais elaborado de tudo ao mesmo tempo – precisará selecionar.
Nesse sentido, a atenção funciona como uma espécie de filtro. Entre aquilo que chega continuamente pelos sentidos, alguns elementos recebem maior prioridade e tornam-se mais disponíveis para serem trabalhados pelo sistema cognitivo. Por isso, problemas relacionados a essa etapa poderão desencadear uma “bagunça” em todo o sistema de memória e aprendizagem. Desse modo, maneiras saudáveis de captar a atenção devem ser um cuidado pelo qual o educador deve prezar se quiser trabalhar em prol de atingir os objetivos de aprendizagem a que se propõe.
E aqui, cabe lembrar que estamos vivendo cada vez mais rodeados de estímulos e que, sendo assim, a escola tem que competir hoje com uma quantidade de distrações muito maior do que em outras épocas. Por isso, atrair a atenção tornou-se, sim, uma questão fundamental do processo educativo.
A atenção, contudo, não deve ser confundida com imobilidade e obediência. Uma criança pode estar sentada e aparentemente quieta sem estar verdadeiramente envolvida com aquilo que acontece. Por outro lado, pode estar em movimento, a experimentar, conversar, construir, desenhar e estar profundamente concentrada.
Após a etapa mencionada, a informação que recebe maior prioridade começa, então, a ser trabalhada pela chamada memória operacional ou memória de trabalho. Ela permite manter ativa a informação reconhecida como relevante enquanto a utilizamos, para podermos comparar aquilo que acabámos de receber com conhecimentos prévios, manipulando mentalmente diferentes elementos ao mesmo tempo para construir um pensamento.
É ela que utilizamos, por exemplo, quando lemos um texto e precisamos nos lembrar do que estava escrito no parágrafo anterior para compreendermos o seguinte. É também ela que está envolvida quando um educador apresenta um problema matemático e a criança precisa guardar alguns dados na mente enquanto pensa na solução.
Porém, a memória de trabalho tem uma capacidade limitada. Por isso, cuidado! Quando oferecemos demasiada informação ao mesmo tempo, podemos ultrapassar aquilo que o cérebro consegue manipular naquele momento. E esta questão é particularmente importante para a educação. Menos conteúdos apresentados de maneira bem dosada e atrativa podem surtir melhores resultados do que o excesso de informações.

Aprendemos a partir do que já sabemos
Imagine que um professor diz:
“Hoje vamos escrever uma história sobre uma praia.”
Essa frase é muito mais do que uma instrução. Ao ouvi-la, cada criança começa a procurar, nas suas memórias, aquilo que sabe sobre praias. Uma pode pensar em um local que visitou. Outra pode lembrar-se de um livro. Outra pode imaginar animais marinhos. Outra pode recordar uma fotografia. Outra pode associar a praia a uma experiência familiar, a uma viagem ou até a uma história que alguém lhe contou.
A mesma palavra pode evocar associações muito diferentes na memória de cada criança. Os conhecimentos e experiências anteriores oferecem pontos de referência que podem facilitar a compreensão e a associação de novas informações. Isto leva-nos a uma premissa pedagógica muito importante: ensinar também significa criar oportunidades para que a criança evoque aquilo que já sabe.
Quando partimos das experiências anteriores da criança, não estamos apenas a tornar a aula mais interessante como muitos pensam. Estamos a trabalhar um conceito importante no que concerne à memória – a associação, que consiste em oferecer pontos de ligação para que a nova informação possa encontrar um lugar dentro daquilo que já existe.
Emoção e aprendizagem
A aprendizagem também não acontece num cérebro separado das emoções. As emoções podem influenciar aquilo a que prestamos atenção, aquilo que aprendemos e aquilo que posteriormente conseguimos recordar. A nossa atenção, aquela que funciona como um mecanismo de seleção, é influenciada pelo nosso estado emocional, pelo interesse que nutrimos em algo, pela motivação com a qual a informação é apresentada e pelas experiências que já vivemos e que estamos a viver.
Por exemplo: uma criança cansada, com fome, ansiosa, sob forte estresse ou emocionalmente mobilizada pode ter mais dificuldade em utilizar plenamente os recursos da memória de trabalho.
Da mesma forma, uma experiência que desperta curiosidade, entusiasmo ou envolvimento pode favorecer a atenção e contribuir para que a aprendizagem aconteça de maneira mais fluida. No entanto, isso não significa que o educador deve transformar todas as aulas num espetáculo permanente (e muita gente desanima por entender que o deveria), mas significa reconhecer que o modo como apresentamos uma informação importa.
Um conteúdo pode até ser conhecido pela criança, mas, se for apresentado de uma maneira completamente distante da sua realidade, completamente descontextualizado, talvez ela tenha dificuldade em atribuir-lhe sentido. Por isso, situações relacionadas com o cotidiano, com a cultura, com o território e com as experiências das crianças podem funcionar como pontes entre o conhecimento novo e o pré-existente.
Mas como fazer isso? Para ilustrar, vamos imaginar uma aula sobre frações, por exemplo.
Em vez de começarmos apenas com círculos divididos em partes iguais no livro, podemos partir de uma situação familiar: uma receita de bolo. A receita pede, por exemplo, meia xícara de leite, três quartos de xícara de farinha e um quarto de xícara de óleo.
A criança precisará perceber o que significa “meia”, “um quarto” ou “três quartos” e, eventualmente, descobrir como adaptar a receita se quiser fazer o dobro da quantidade.
O conteúdo matemático continua presente e as frações continuam a ser trabalhadas. Mas, neste caso, existe uma situação concreta que desperta o interesse e permite relacionar o novo conhecimento com algo que a criança já conhece.
A criança não está apenas a aprender o que é uma fração. Está também começando a perceber onde e por que razão pode utilizar esse conhecimento.
Assim, a aprendizagem deixa de ser apenas uma informação isolada e passa a estar associada a uma experiência, a um contexto e, principalmente, a um significado.
Repetir também é aprender
Vivemos numa cultura marcada pela novidade e pela velocidade. Somos constantemente expostos a novos conteúdos e descobertas, o que pode criar a sensação de que precisamos sempre avançar para o próximo estímulo. Mas aprender não funciona necessariamente assim.
Não podemos esquecer que, fisiologicamente, a repetição tem um papel importante na consolidação da memória. O cérebro não transforma instantaneamente uma informação nova numa memória duradoura – é necessário tempo, utilização e, muitas vezes, reencontro com aquela informação.
Uma informação apresentada uma única vez pode desaparecer rapidamente. Quando voltamos a ela, fazemos associações, recuperamos aquilo que aprendemos anteriormente e utilizamos o conhecimento em diferentes situações, estamos a criar mais oportunidades para consolidar essa aprendizagem e facilitar a sua evocação posteriormente.
Por isso, talvez o problema não esteja na repetição em si, mas na forma como repetimos. Repetir mecanicamente pode ser pouco produtivo – é o que acontece, sobretudo, quando uma criança precisa memorizar informações para um teste, as quais ela poderá esquecer pouco tempo depois, se não no mesmo dia.
Revisitar uma ideia através de diferentes experiências pode ser profundamente enriquecedor. Ler sobre um tema, conversar sobre ele, observá-lo, desenhá-lo, experimentá-lo e utilizá-lo numa situação concreta são diferentes caminhos que podem conduzir ao mesmo conhecimento e que prezam pela repetição de maneira agradável.

O corpo também aprende
Quando pensamos em aprendizagem, tendemos a privilegiar a cabeça, mas o corpo também é fundamental nesse processo. A aprendizagem de uma habilidade motora é um excelente exemplo disso.
No início, quando uma criança aprende a tocar um instrumento, escrever, andar de bicicleta ou executar determinado ação, precisa de muita atenção e esforço consciente. Com a prática, os movimentos tornam-se progressivamente mais eficientes e aquilo que inicialmente exigia grande esforço cognitivo pode tornar-se mais automático.
A prática repetida pode permitir que determinadas habilidades sejam consolidadas, reduzindo a quantidade de atenção e de memória de trabalho necessária para realizar determinados procedimentos. Por exemplo, torna-se mais fácil compreender e passar uma informação para o papel quando a criança não tem que se preocupar tanto com a dificuldade em segurar o lápis, ou seja, quando esse gesto já é algo consolidado.
É por isso que o movimento deve ser visto também como uma importante aliado pedagógico. O brincar motivado por projetos que ampliam as possibilidades de investigar, construir, manipular, desenhar, dançar, dramatizar, experimentar, montar, desmontar e criar é uma forma muito bem-vinda de pensar com o corpo.
E quando uma criança esquece?
Esta é talvez uma das questões mais importantes para quem trabalha com crianças. Esquecer não significa necessariamente que exista um problema. A memória não foi criada para conservar absolutamente tudo aquilo que vivemos. Informações que deixam de ser utilizadas podem perder-se, e tudo bem.
Naturalmente, esquecimentos persistentes ou que provoquem impactos negativos no desenvolvimento da criança merecem atenção especializada. Contudo, a avaliação de dificuldades de aprendizagem ou de memória não deve ser feita apenas a partir da observação de um comportamento isolado.
Antes de concluir que uma criança “não presta atenção”, talvez seja necessário considerar alguns aspectos, tais como: A informação foi apresentada de maneira compreensível? A criança tinha conhecimentos prévios para estabelecer relações? Havia excesso de estímulos? O ambiente favorecia a concentração? Como ela estava emocionalmente? Estava descansada?
Essas perguntas podem mudar completamente a nossa maneira de olhar para o comportamento infantil e direcionar o foco na busca de soluções mais eficazes.

Que escola estamos a construir?
Compreender a relação entre memória e aprendizagem não significa que devemos transformar professores em neurocientistas. Significa, antes de tudo, reconhecer que ensinar é trabalhar com pessoas e isso envolve estruturas complexas e interligadas. Cérebro, corpo, emoções, experiências, relações, contexto e cultura participam do processo.
Uma boa experiência educativa não precisa abandonar tudo o que sempre fez e faz até agora: os conteúdos, a explicação ou a sistematização do conhecimento. Talvez precise apenas combinar esses elementos com outras possibilidades mais condizentes com o modus operandi humano, incluindo em seu método tradicional os facilitadores neurocognitivos apontados nesse texto.
E essa tarefa não é tão difícil assim se a visão que temos de criança considera que ela não chega à escola como uma folha em branco. Chega com memórias, com histórias, com perguntas, com experiências, com um corpo que já aprendeu inúmeras coisas antes mesmo de saber explicar como as aprendeu e que tem sede de movimento.
Criar pontes entre aquilo que a criança já viveu e aquilo que ainda está por descobrir não deve ser visto como uma tarefa impossível e exaustiva, mas como um desafio que, para ser bem-sucedido, toda a comunidade escolar deve buscar compreender e abraçar.
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