“Se não se desfruta da aprendizagem, não há aprendizagem autêntica.” – Carlos González Pérez
A infância é a fase mais potente do desenvolvimento humano. Nela, o cérebro está em constante expansão, formando conexões e absorvendo o mundo ao redor com uma naturalidade surpreendente. O impulso para aprender não precisa ser ensinado — ele já nasce com a criança. Essa disposição natural se revela na curiosidade, na vontade de explorar, no movimento incessante, na busca por respostas que talvez ainda nem consiga formular em palavras.
No entanto, nem sempre a educação acompanha essa potência. Muitas vezes, a escola — e até mesmo os adultos ao redor — acaba por desconsiderar o modo como a criança aprende de verdade. Em vez de nutrir a curiosidade, tende a controlá-la. Em vez de dialogar com seus interesses, impõe conteúdos e ritmos que pouco têm a ver com seu momento de desenvolvimento. Aos poucos, o prazer em aprender vai dando lugar ao cansaço, à repetição, à desconexão.
Para compreender como as crianças aprendem, é fundamental olhar para o cérebro infantil. A neurociência nos mostra que os primeiros anos de vida são marcados por uma intensa plasticidade cerebral: o cérebro literalmente se molda conforme as experiências vividas. A cada nova vivência significativa, novas conexões se formam. Além disso, quanto maior o envolvimento emocional nesse processo, mais fortes e duradouras essas conexões serão.
| O cérebro e a aprendizagem: emoção, motivação e memória A neurociência hoje confirma o que tantos educadores já sabiam na prática: o cérebro da criança está biologicamente programado para aprender. Só que não de qualquer forma. A aprendizagem acontece quando há envolvimento emocional, prazer, movimento e significado. No cérebro, o processo funciona assim: – Cada vez que a criança experimenta algo novo, seu cérebro cria sinapses (conexões entre neurônios). – Quanto mais essas experiências forem repetidas de maneira prazerosa e imbuídas de sentido, mais fortes essas conexões se tornam. – É isso que forma a memória de longo prazo — o saber que fica. Se o aprendizado está associado ao medo, à pressão ou à repetição mecânica, o cérebro ativa áreas de defesa (como a amígdala, por exemplo), dificultando o acesso ao raciocínio, à criatividade e à fixação da experiência. |
É nesse ponto que o brincar ganha protagonismo. Longe de ser um passatempo, o brincar é o modo mais natural e poderoso que a criança tem para aprender. Ao brincar, ela explora, experimenta, se arrisca, erra e tenta de novo. E o mais importante: faz isso com prazer, sem que o objetivo final seja o “acerto”. Nesse movimento livre, o corpo, o pensamento e as emoções trabalham juntos, construindo uma aprendizagem autêntica.
| Brincar é aprender Ao brincar, a criança desenvolve todas as áreas do seu ser: – Cognitiva: resolve problemas, testa hipóteses, exercita a imaginação. – Emocional: expressa sentimentos, elabora frustrações, aprende a lidar com limites. – Motora: coordena corpo e espaço, amplia repertório físico, se desafia. – Social: negocia, coopera, escuta, aprende sobre o outro. E tudo isso acontece de forma orgânica — não porque alguém disse que “é hora de aprender”, mas porque ela deseja viver aquilo. |
Por isso, não podemos tratar o aprendizado como algo exclusivamente racional ou conteudista. O conhecimento não se fixa apenas pela lógica; ele precisa fazer sentido, precisa tocar. O cérebro aprende melhor quando está envolvido — e isso acontece quando há interesse, afeto, surpresa e descoberta.
No entanto, a realidade escolar muitas vezes caminha no sentido oposto. A criança é ensinada a repetir em vez de compreender. Aprende que precisa acertar para ser valorizada, que errar é sinal de fracasso. Aos poucos, vai moldando seu comportamento para agradar, e não para expressar o que sente ou pensa. E, assim, o desejo genuíno de aprender se enfraquece. A criatividade vira “indisciplina”, a curiosidade vira “falta de foco”.
Esse processo não afeta apenas a cognição, mas também o emocional. O ambiente em que a criança cresce impacta diretamente sua forma de aprender e de se relacionar com o mundo. Quando o afeto é escasso e a tensão está constantemente presente, a criança tende a internalizar esses padrões. Torna-se mais reativa, ansiosa, insegura. Não porque “nasceu assim”, mas porque aprendeu a existir em estado de alerta.
É nesse ponto que o papel do adulto — pais, professores, cuidadores — se torna decisivo. Uma criança não aprende sozinha, mesmo sendo naturalmente curiosa. Ela precisa de um entorno humano que a sustente, que ofereça segurança emocional e liberdade de expressão. Precisa de adultos que saibam propor caminhos, e não impor verdades, que saibam escutar, e não apenas corrigir.
Educar, então, é mais do que transmitir conteúdo: é acompanhar o desenvolvimento integral da criança — corpo, mente e emoções. Isso significa valorizar o movimento, respeitar os ritmos individuais, acolher o erro, permitir a dúvida, sustentar os silêncios, incentivar perguntas — mesmo aquelas para as quais não temos respostas prontas.
Quando a educação se desconecta da realidade da criança, ela se torna um processo mecânico, sem significado. E quando exigimos além do que ela pode oferecer, sem considerar sua etapa de desenvolvimento, geramos estresse e frustração. O aprender deixa de ser prazeroso e se transforma em obrigação.
A adolescência é um reflexo claro disso. Muitos dos impulsos criativos e questionadores da infância ressurgem nessa fase, mas agora com força maior e, muitas vezes, sob forma de rebeldia. O que poderia ser canalizado como senso crítico e desejo de transformação, frequentemente é reprimido com punição ou desqualificação. Em vez de acolher o que está por trás do comportamento, insistimos em corrigir o que se vê na superfície. E assim, mais uma vez, a espontaneidade se perde e ajudamos a endossar estereótipos.
Se quisermos, de fato, formar sujeitos criativos, conscientes e sensíveis, precisamos oferecer ambientes que favoreçam o desenvolvimento emocional e não apenas o desempenho escolar. Precisamos repensar não apenas o conteúdo, mas a forma como se aprende, o modo como se avalia, o jeito como nos relacionamos com os alunos.
A avaliação, por exemplo, não pode ser instrumento de comparação e hierarquia. O foco deve estar no progresso de cada criança em relação a si mesma, e não aos outros. E mesmo a autoavaliação — que já é adotada em algumas escolas — precisa ser repensada. Quando pedimos à criança que se dê uma nota, estamos apenas reproduzindo o sistema tradicional. Em vez disso, podemos convidá-la a refletir sobre o que aprendeu, como se sentiu, o que gostaria de aprofundar. Isso sim favorece o autoconhecimento e fortalece sua autonomia.
Por fim, é preciso lembrar: o que a criança aprende com prazer, ela leva para a vida. A motivação está no caminho, e não no resultado. Aprender é uma aventura — um salto ao desconhecido. E cabe a nós, adultos, criar as condições para que esse salto aconteça de maneira segura, lúdica e repleta de significados.
A escola pode ser um lugar onde a criança se surpreende todos os dias com algo novo. Onde o educador atua como alguém que propõe desafios, desperta a curiosidade, estimula a investigação. Quando isso acontece, a aprendizagem deixa de ser um dever e passa a ser um direito — vivido com alegria, desejo e encantamento.
Observar a maneira como as crianças exploram o mundo é reencontrar o sentido mais autêntico do aprender. Se essa perspectiva ressoa com você, convido a inscrever-se no site para continuarmos refletindo sobre caminhos para uma educação mais sensível e transformadora.







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