“Aprender é um processo contínuo e interminável. Enquanto houver curiosidade, há o que aprender.” Ana Mae Barbosa
A arte é uma linguagem complexa, sensível e transformadora. É também um direito — de acesso, de produção, de interpretação. Para Ana Mae Barbosa, pioneira da arte-educação no Brasil, a arte vai além da expressão da emoção e do talento inato: ela se aprende, se ensina e se vive. Recentemente, ao visitar a exposição Ocupação Ana Mae Barbosa, no Itaú Cultural, fui profundamente tocada por sua trajetória e quis partilhar aqui minha percepção sobre a importância e a atualidade do seu legado. Sua atuação, que atravessa décadas, instituições e políticas públicas, consolidou-se como referência nacional e internacional, em especial pela criação e disseminação da chamada Abordagem Triangular — uma proposta que integra leitura de imagens, contextualização e produção artística, formando um ciclo de aprendizagem crítica e sensível.
Ao revisar paradigmas da educação artística predominantes nas décadas de 1950 e 1960 — focados na “livre expressão” (um recurso fulcral na primeira infância, mais insuficiente nas demais etapas da vida) e descolados da análise do contexto histórico —, Ana Mae construiu, em diálogo com teorias pós-modernas e movimentos sociais, uma prática pedagógica extremamente comprometida com a leitura do mundo. Mais do que ensinar técnicas ou estilos, sua proposta buscava promover uma alfabetização visual: um letramento para decodificar as imagens que nos cercam e, a partir disso, desenvolver consciência crítica, identidade cultural e cidadania ativa.
Seu trabalho transbordou os limites da sala de aula. Na direção do Museu de Arte Contemporânea da USP, entre 1986 e 1993, Ana Mae Barbosa operou sob um conceito antropológico de arte, propondo uma estética mais cotidiana e politizada. Nesse contexto, estruturou sua gestão em quatro frentes: arte e minorias, estética das massas, arte e públicos, e arte e meio ambiente — eixos que anteciparam muitas das discussões contemporâneas sobre inclusão, sustentabilidade e democratização cultural.
A própria trajetória de Ana Mae Barbosa é um testemunho de sua crença na educação como instrumento de emancipação. Aluna de Paulo Freire no Instituto Capibaribe, ainda nos anos 1950, ela se inspirou na pedagogia libertadora e questionou desde cedo: quem educa o educador? A partir daí, integrou à sua atuação artística a formação docente, defendendo a autonomia dos professores na construção de suas práticas. Para ela, metodologia não é receita; é caminho próprio, construído na experiência da sala de aula, em diálogo com o contexto e os sujeitos.
Mais do que uma educadora, Ana Mae Barbosa é uma intelectual engajada. Sua formação em Direito, concluída em 1960, alimentou seu entendimento da educação como um direito e uma causa pública. Denunciou o sucateamento das políticas culturais, a precarização dos trabalhadores da arte e o esgotamento mental — o que ela chamou de síndrome do museu —, relacionando cultura, saúde mental e responsabilidade institucional muito antes dessas pautas ganharem a atenção que têm hoje.
Sua atuação aponta para um entendimento expandido da arte-educação, que não se restringe à escola, mas abrange museus, centros culturais e todos os espaços em que o encontro com a arte gera reflexão, vínculo e conhecimento. Como ela mesma afirmou: “Não podemos entender a cultura de um país sem conhecer sua arte.” E mais: “Só um fazer consciente e informado torna possível a aprendizagem em arte.”
Nesse sentido, a mediação cultural — por vezes subestimada — assume papel central. A mediação é o coração pulsante da instituição. Mediar é construir pontes entre o público e a obra, entre o passado e o presente, entre diferentes subjetividades. É nesse encontro horizontal, afetivo e político que se revela a capacidade formativa da arte e dos espaços culturais. Afinal, como escreveu Ícaro Melo para o catálogo da exposição, “descobrir o outro é desvendar um pouco de si”. O contato com a arte e com as pessoas transforma, amplia, ressignifica, conecta.
Ana Mae Barbosa nos convida a transformar a educação, a arte e as instituições em territórios vivos de aprendizagem, prazer e crítica. Um chamado urgente num mundo onde aprender continua sendo a chave para imaginar novos futuros.







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