“Quase todos os homens vivem inconscientemente no tédio. O tédio é o fundo da vida. Foi o tédio que inventou os jogos, as distrações, os romances e o amor.”
— Miguel de Unamuno
O cenário ideal?
Imagine um ambiente cuidadosamente pensado para o brincar: brinquedos e jogos diversos, materiais atrativos dispostos ao alcance das crianças, que podem escolher, combinar, transformar. Adultos presentes, conscientes da importância do brincar livre, observando sem dirigir, disponíveis sem serem invasivos.
Adicione a esse cenário um quintal generoso, desses que oferecem espaço para correr, escalar, cavar, inventar mundos. Um convite vivo à criatividade e à autonomia.
Perfeito, não?
Seria lógico supor que, num espaço assim, não haveria espaço para o tédio. Mas, como sabemos bem… o tédio sempre aparece.
E, com ele, vêm aquelas frases que desconcertam até os adultos mais conscientes:
“Não tem nada para fazer!”
“Do que eu posso brincar?”
“Tô entediado!”
Diante disso, muitos adultos rapidamente oferecem sugestões, tentam distrair, redirecionar, propor. A intenção é boa — evitar o desconforto da criança — mas a ação muitas vezes interrompe um processo interno essencial: a escuta de si, o vazio fértil, a reorganização interna que o tédio convida a acontecer.
Afinal, o que é o tédio?
O tédio, esse estado de vazio, de incerteza, é muitas vezes interpretado como algo negativo, quase perigoso. Mas, ao contrário do que nos acostumamos a pensar, ele pode ser um espaço de transição, uma pausa necessária entre estímulos, ideias e criações.
Na perspectiva da psicologia do desenvolvimento e das abordagens contemporâneas da infância (Pikler, Reggio Emilia, antroposofia, entre outras), o tédio não é ausência de atividade, mas um convite ao mergulho interno, ao nascimento do desejo, à criação de sentido.
“Atenção: essa vida contém cenas explícitas de tédio, nos intervalos da emoção.”
— Alice Ruiz
O tédio como provocação criativa
Quando acolhido com naturalidade, o tédio pode se transformar em uma mola propulsora da criatividade. Ele exige escuta, introspecção, presença. Muitas descobertas nascem justamente do desconforto que ele provoca.
Mas para que isso aconteça, o adulto também precisa aprender a acolher o próprio tédio! E essa é talvez a parte mais difícil.
Vivemos em uma cultura que valoriza a produtividade, o fazer constante, a performance — mesmo na infância. Crianças são cercadas por estímulos, rotinas excessivas, telas, agendas cheias. Em casa e na escola, o tempo é frequentemente preenchido para evitar o vazio.
E, nessa lógica, o tédio vira inimigo.
Tédio e autoconhecimento
Permitir que uma criança sinta tédio é confiar em sua capacidade de encontrar caminhos internos. É fortalecer sua autonomia, ampliar a escuta de si, dar espaço para que a curiosidade floresça de dentro para fora.
“A cura para o tédio é a curiosidade. Não existe cura para a curiosidade.”
— Ellen Parr
Não raro, crianças entediadas encontram novas maneiras de brincar com os mesmos objetos. Inauguram jogos simbólicos, redescobrem o corpo em novas habilidades, observam pequenos detalhes da natureza. Nascem aí pequenas potências criativas, que só se revelam quando o silêncio é permitido.
Quando o tédio também é um problema para o adulto
Muitos de nós, adultos, não fomos educados para tolerar o silêncio, a pausa ou a espera. Em contextos sociais, é comum preenchermos cada instante com falas, histórias ou relatos de conquistas — como se o vazio nos tornasse desinteressantes aos olhos do outro.
Na relação com as crianças, isso se manifesta na pressa de oferecer algo:
“Vai fazer tal coisa.”
“Brinca disso ou daquilo!”
“Quer que eu brinque com você?”
No entanto, nesses momentos, o que podemos mesmo oferecer parece soar pouco resolutivo: acompanhar o desconforto da criança. Claro, com calma, com afeto, com presença real, mas sem pressa de preencher.
Tédio e saúde emocional
Estudos em neurociência e psicologia mostram que a capacidade de lidar com o tédio está associada à regulação emocional, à criatividade e até mesmo à saúde mental.
Pessoas com baixa tolerância ao tédio tendem a desenvolver comportamentos impulsivos e compulsivos, muitas vezes buscando estímulos externos (como o uso excessivo de telas, consumo de açúcar, compras, entre outros) como forma de fuga. Para saber mais, recomendo visitar o site The Kids Mental Health Foundation, que oferece artigos acessíveis sobre esse e outros temas.
Ensinar as crianças a lidar com o tédio é, portanto, educar para o equilíbrio interno. É ajudá-las a não temer o vazio, a se conhecerem melhor e a se sentirem bem na própria companhia.
O papel da escola e da família
As escolas tradicionais ainda resistem à ideia de pausa. A rotina escolar costuma ser preenchida com conteúdos, tarefas, avaliações. Pouco se estimula o devaneio, o tempo livre, o ócio criativo, ainda que a proibição do celular seja um avanço digno de mérito.
Da mesma forma, muitas famílias, preocupadas em “estimular” suas crianças, lotam a agenda com cursos, atividades extracurriculares e compromissos — muitas vezes com a melhor das intenções, mas sem espaço para o descanso, o tédio, o brincar espontâneo.
É preciso rever essa lógica.
Um convite à reconciliação
“A paz me deixa nervoso — acho sempre que é tédio.”
— Fabrício Carpinejar
Vivemos um paradoxo: ansiamos por paz, mas fugimos do silêncio. Queremos descanso, mas nos sentimos culpados ao parar.
Que tal olharmos o tédio com outros olhos?
Em vez de combatê-lo, que possamos acolhê-lo. Reconhecê-lo como parte da vida — e da infância. E, principalmente, permitir que nossos filhos o vivenciem com naturalidade, com presença e com respeito.
Da próxima vez que uma criança disser que está entediada, que tal respirarmos fundo antes de reagir?
Que tal devolvermos com gentileza:
“É… às vezes a gente sente isso mesmo. Vamos ver o que aparece daqui a pouco?”
Estar com a criança nesse momento sem pressa de resolver é um ato educativo profundo. É confiar em sua capacidade de criar, de inventar, de sentir.
“O tédio é de uma felicidade primária demais. E é por isso que me é intolerável o paraíso.”
— Clarice Lispector
Que possamos aprender com o tédio — e ensinar, com ele, o valor das pausas, da escuta e da presença.








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