À medida que avançamos na compreensão do desenvolvimento gráfico infantil, especialmente na representação da figura humana, entramos em uma fase marcada por maior complexidade e intenção no traço. Por volta dos cinco aos sete anos de idade, a criança demonstra não apenas maior domínio motor e cognitivo, mas também uma crescente sensibilidade às relações sociais e aos padrões culturais que observa no ambiente ao seu redor.
Nesse momento do desenvolvimento, começam a surgir detalhes que vão além da estrutura corporal básica, com destaque para a vestimenta e os penteados. É comum que as meninas sejam representadas com vestidos e os meninos com calças, evidenciando um padrão que reflete tanto a observação do cotidiano quanto a assimilação de convenções culturais ligadas ao gênero. Esses elementos indicam como a criança começa, aos poucos, a reproduzir símbolos sociais associados ao feminino e ao masculino. Os penteados também ganham contornos mais definidos — cabelos longos e soltos para meninas, curtos e retos para meninos — reforçando essas distinções. Assim, o desenho infantil se transforma em um retrato das muitas camadas do mundo que a criança interpreta e ressignifica por meio do lápis e do papel.
Outro avanço importante é a mudança na perspectiva: o rosto, que até então era representado de frente, pode passar a aparecer de perfil. Essa mudança se evidencia principalmente pela posição do nariz, ainda que os olhos e a boca muitas vezes permaneçam todos do mesmo lado da face. Já o tronco da figura humana passa por lapidações significativas. Por volta dos três a quatro anos, começam a surgir formas enoveladas em torno do eixo vertical do corpo — uma expressão inconsciente do desenvolvimento do sistema rítmico (órgãos como o coração e os pulmões) e da percepção do fluxo interno de líquidos, incluindo o da coluna vertebral.
Outra possibilidade que pode emergir nessa fase é a alteração do eixo de simetria do corpo. Em vez da simetria vertical habitual, a criança pode começar a explorar uma simetria transversal. Isso confere à figura uma base mais estática, que se ancora na orientação vertical e pode se manifestar em formas semelhantes a escadas ou grades. Esses elementos, por sua vez, funcionam como símbolos do esqueleto e podem ser interpretados como representações inconscientes de proteção e estrutura.

É comum, quando surge esse tipo de desenho, a criança passar por um processo conhecido como “medo fisiológico”. Ela, que antes se mostrava segura, assumindo riscos nos brinquedos do parque, dormindo separada dos pais e no escuro, parece “regredir” em relação a tais conquistas. No entanto, isso ocorre devido a uma compreensão maior e mais realista dos fatos do dia-a-dia, uma vez que já está mais distanciada do mundo (percepção do “eu” e aumento da propriocepção). Com isso, passa a solicitar, com maior frequência, o adulto para protegê-la e para retirar de seu caminho possíveis “perigos”. Trata-se de uma elaboração interna, que tende a desaparecer naturalmente, do mesmo modo que surgiu, desde que os cuidadores validem seus sentimentos e se posicionem como fontes de acolhimento e segurança.

No próximo post, trarei a última parte da nossa reflexão sobre a representação da figura humana nos desenhos infantis. Se esse conteúdo fez sentido para você, continue acompanhando para aprofundarmos ainda mais esse olhar sensível sobre o desenvolvimento da criança.








Deixe um comentário