Brincar heurístico: escuta, presença e descoberta na primeira infância

O brincar é a linguagem essencial da infância. Um território de experimentações, de gestos carregados de sentido, de mundos inventados a partir do que está ao alcance das mãos. Dentre tantas formas de brincar, o brincar heurístico se revela como uma experiência de liberdade, presença e respeito pelo tempo e modo de ser de cada criança.

 Um convite à descoberta

“Heurístico” vem do grego heuriskein: descobrir. O brincar heurístico é, portanto, uma experiência em que a criança explora, investiga e cria relações com objetos não estruturados, como os materiais naturais, por exemplo, que não têm uma função pré-definida.

Essa abordagem foi idealizada por Elinor Goldschmied, educadora inglesa que, a partir de sua escuta e observação atenta dos bebês e crianças pequenas, propôs uma forma de brincar que não dita regras, mas convida ao encontro — da criança com o mundo, com os objetos e consigo mesma.

O pesquisador Paulo Fochi, em seu livro O Brincar Heurístico na Creche, aprofunda essa abordagem, mostrando como ela se articula com uma escuta pedagógica sensível, que considera os gestos da infância como expressões legítimas de pensamento e criação.

Por que importa?

No brincar heurístico, não há metas rígidas a cumprir. Há um processo. Um mergulho no tempo da infância, em que o simples manipular, combinar, empilhar, esconder, fazer caber e tirar transforma-se em investigação potente do mundo ao redor.

Esse brincar promove:

  • Autonomia: a criança decide como, com o que e por quanto tempo brincar.
  • Relação sensorial com o mundo: cada textura, peso, som e forma é capaz de oferecer uma nova descoberta.
  • Concentração e encantamento: ao contrário do que se pensa, a simplicidade dos materiais abre espaço para o desenvolvimento eficaz da atenção, uma vez que a brincadeira inventada pela criança é sustentada pela sua própria motivação.
  • Desenvolvimento motor e cognitivo: sem que esse seja o objetivo, mas como consequência natural da ação livre e curiosa.
  • Exercício da imaginação e do pensamento simbólico: como os materiais não têm uma função pré-estabelecida, cada objeto pode se transformar — ser o que a criança quiser que ele seja. Assim, o brincar heurístico convida a invenções singulares, dando forma àquilo que ainda não tem nome.

O adulto que observa

No brincar heurístico, o papel do adulto é o de preparar e sustentar o ambiente — física e emocionalmente. É estar presente com olhar acolhedor, confiando na capacidade da criança de conduzir sua própria brincadeira.

Como nos lembra Paulo Fochi, o adulto que observa com qualidade transforma sua escuta e suas observações em material pedagógico: registros que contam histórias de descobertas e olhares que enxergam potência onde muitos só veem repetição.

Mais que atividade, uma postura

Brincar heurístico não é uma técnica ou um método fechado. É uma postura ética diante da infância. Um gesto de confiança na criança, que revela o quanto ela é capaz de criar sentido mesmo a partir do que, aos nossos olhos, poderia parecer banal.

Elinor Goldschmied nos ensina que, ao oferecer um ambiente com intenção, cuidado e liberdade, estamos dizendo à criança: “confio em você, no seu tempo e nas suas escolhas.”

Mais do que propor uma brincadeira, o brincar heurístico é uma forma respeitosa de estar com a criança. Um modo de dizer, sem palavras: o mundo é teu — pode explorar à vontade; eu estou aqui, te vendo brincar.

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