“A criança é feita de cem. A criança tem cem mãos, cem pensamentos, cem modos de pensar, de jogar e de falar. Cem sempre cem (…) Cem mundos para descobrir, cem mundos para inventar, cem mundos para sonhar. A criança tem cem linguagens (e depois cem, cem, cem), mas roubaram-lhe noventa e nove.”
Loris Malaguzzi foi um educador italiano que, após a Segunda Guerra Mundial, fundou a abordagem de Reggio Emilia, desenvolvida na cidade homônima. Seu trabalho parte da premissa de que a criança é um ser ativo, curioso e capaz de construir conhecimento por meio da interação com os outros e com o ambiente. Nessa visão, aprender não é um ato passivo de absorção de conteúdos, mas uma experiência dinâmica, relacional e expressiva. A criança utiliza múltiplas linguagens — corporais, simbólicas, artísticas e científicas — para compreender e se conectar com o mundo ao seu redor.
Esse pensamento contrasta fortemente com o modelo tradicional de educação, que frequentemente espera que todas as crianças aprendam da mesma maneira, no mesmo tempo e com os mesmos resultados. Essa visão homogênea desconsidera as singularidades e ritmos individuais, resultando em um ensino que muitas vezes se limita à mera transmissão de informações. Ao fazer isso, ignora-se que a verdadeira aprendizagem se dá quando a criança se sente envolvida, motivada e emocionalmente conectada ao que está aprendendo. Malaguzzi defende que compreender com alegria não deve ser uma exceção, mas uma condição cotidiana. No entanto, frequentemente o encantamento é relegado a datas comemorativas, como se o maravilhar-se não fosse parte essencial da experiência escolar.
Além disso, a escola tende a criar uma separação artificial entre dimensões da experiência humana que, na realidade, estão intrinsecamente ligadas: ciência e imaginação, razão e emoção, realidade e fantasia. Essa fragmentação limita as possibilidades expressivas da criança e reduz suas “cem linguagens” a poucas formas consideradas válidas. O lúdico, muitas vezes visto como antagônico ao aprendizado, na verdade, pode ser um dos motores mais potentes desse processo.
Na prática educativa inspirada por Malaguzzi, novos caminhos se abrem. Ambientes ricos em materiais diversos — como argila, tintas, tecidos, elementos naturais, objetos domésticos e recicláveis, entre outros — incentivam a experimentação e a exploração. Materiais de fim aberto, que não possuem um único resultado esperado, permitem que a criança crie, investigue e atribua significados próprios às suas produções. As propostas pedagógicas, nesse contexto, não são fechadas ou prescritivas, mas expansivas, estimulando a curiosidade e o diálogo entre diferentes formas de expressão.
A escuta e a observação atenta tornam-se centrais na prática educativa. O educador busca perceber não apenas o que a criança diz, mas também o que expressa por meio de gestos, desenhos, brincadeiras e silêncios. Mesmo aquilo que não é verbalizado comunica algo importante, orientando o planejamento de novas experiências que partem dos interesses e hipóteses das crianças.
Nesse processo, o papel do adulto se transforma. Ele deixa de ser um mero transmissor de conteúdos e assume a função de mediador, co-criador e pesquisador do processo de aprendizagem. Ao reconhecer o potencial expressivo da criança, o educador cria condições para que ele se manifeste, flexibilizando horários, considerando a rotina como parte importante do aprendizado e organizando espaços e materiais que favoreçam a investigação e estimulem a criatividade. Em vez de ensinar respostas prontas, o educador constrói, junto com a criança, caminhos de descoberta, valorizando suas ideias e incentivando o diálogo.
Ao retomar o pensamento de Malaguzzi, percebe-se que sua crítica se estende não apenas à escola, mas a uma visão de infância que reduz a criança a um sujeito incompleto. Ao afirmar que “as cem linguagens existem”, ele reafirma a riqueza e a complexidade da infância. Reconhecer essas “cem linguagens” é, portanto, um compromisso ético e pedagógico: significa devolver à criança aquilo que muitas vezes lhe é negado — o direito de aprender de forma plena, criativa e repleta de sentido.
Para saber mais:
- MALAGUZZI, Loris. As Cem Linguagens da Criança. Porto Alegre: Penso, 1997.
- EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George (orgs.). As Cem Linguagens da Criança: A Abordagem de Reggio Emilia na Educação da Primeira Infância. Porto Alegre: Penso.







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