Quando o Mapa Substitui o Território: Reflexões sobre a Escola Tradicional

A metáfora do mapa e do território, inspirada na fábula de Jorge Luis Borges e retomada pelo educador chileno Carlos Calvo Muñoz, oferece-nos um caminho provocador para repensar a educação contemporânea. Na história, um império cria um mapa tão detalhado de seu território que, em certo ponto, passa a considerá-lo mais importante do que o próprio chão que ele representa. Assim, o mapa acaba por se sobrepor à realidade.

Algo semelhante ocorre hoje com a escola tradicional. Em sua lógica vigente, muitas vezes o que se ensina são verdades já cartografadas, organizadas em livros, testes e planos de aula que pouco dialogam com o modo de ser das crianças. A escola deixa de ser território de descoberta e experimentação para se tornar um espaço de reprodução de conteúdos previamente definidos.

Nesse sentido, Calvo Muñoz propõe um deslocamento radical: sair do mapa para reencontrar o território. Para ele, a escola não é, por si só, sinônimo de educação. Ela representa um projeto de saber idealizado, sistematizado e, muitas vezes, descolado da experiência concreta. Já a educação é um processo vivo, relacional e inevitavelmente imprevisível, que não pode ser totalmente planejado nem antecipado.

Diante disso, precisamos perguntar: o que é, afinal, uma boa educação? Será aquela que garante que um maior número de crianças alcance um padrão de qualidade previamente estabelecido? Ou aquela que prepara para enfrentar as barreiras que o próprio sistema impõe? Ou, ainda, será a que promove o desenvolvimento integral do ser humano, não apenas como estudante, mas como sujeito em construção, com potencialidades singulares e ritmos próprios?

Se o propósito da educação for o florescimento humano, ela não deve estar restrita aos limites do currículo formal nem a modelos pedagógicos rígidos. Precisa partir do reconhecimento da criança como um ser ativo, criativo e sensível, cuja aprendizagem se dá no encontro com o mundo, e não apenas no acúmulo de informações.

O fechamento da escola em saberes restritos fez com que perdêssemos os critérios exteriores da natureza, da comunidade e do convívio, fundamentais para o desenvolvimento infantil. Passamos a obedecer quase exclusivamente aos critérios dos livros, das grades curriculares e das avaliações padronizadas. Com isso, minamos o impulso de descoberta e a investigação espontânea que nasce da experiência.

A criança aprende rapidamente a ceder ao impulso de buscar motivação externa — estudar para passar e cumprir tarefas às quais são atribuídos valores — afastando-se de sua curiosidade inata e de seu ritmo natural de aprendizagem. Ou seja, em busca de gratificação e reconhecimento, molda seu comportamento para atender a padrões, perdendo a conexão com seus próprios interesses e desejos.

Quando a sociedade nos leva a depender exclusivamente de motivadores externos, nos tornamos incapazes de perceber que é possível fazer algo apenas pelo prazer do processo e pelo envolvimento genuíno. Ao colocarmos a felicidade no resultado, vivemos em constante insatisfação, como se o aprendizado fosse sempre um meio, nunca um fim em si mesmo.

Nesse contexto, a escola precisa transformar-se em um espaço aberto a novas experiências: um lugar integrado ao seu entorno, um território compartilhado, onde o que se aprende dentro e fora dos muros escolares se entrelaça. Um espaço onde as experiências prévias da criança e seu contexto constituam meios legítimos de aprendizado. Nessa proposta, não há barreiras rígidas entre idades, saberes ou funções. Há, sim, convivência, respeito e trocas que enriquecem a todos.

Por isso, a ideia de uma escola “além-muros e mapas” é mais do que uma metáfora: é um chamado à reinvenção da própria noção de educação. Uma educação conectada à vida e às múltiplas formas de saber. Uma educação que, antes de impor um percurso idealizado, permite que cada criança trilhe, com autonomia e encantamento, os caminhos do seu próprio território, inclusive o imaginado.

Referência:
CALVO MUÑOZ, Carlos. Del mapa escolar al territorio educativo: Disoñando la escuela desde la educación. 5ª edição.

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