Crenças e frases herdadas: o impacto invisível que molda a infância

Você já se pegou repetindo frases que ouviu a vida toda, sem nem perceber o impacto que elas podem causar? Todos nós, sem exceção, crescemos ouvindo bordões que, de tão repetidos, se tornaram “verdades absolutas”. No entanto, quando estamos empenhados em educar de maneira mais consciente, empática e respeitosa – como propõe a Educação Positiva –, essas frases começam a incomodar. Algo nelas parece não caber mais no mundo que desejamos construir com e para nossas crianças.

É aí que surge a pergunta essencial: O que está por trás das palavras que repetimos? E mais importante ainda: Quais crenças estão limitando nossa forma de educar, mesmo quando temos as melhores intenções?

Educação Positiva: um novo olhar para velhas práticas

A Educação Positiva é uma abordagem baseada na psicologia individual de Alfred Adler e nos estudos contemporâneos sobre neurociência, desenvolvimento infantil e psicologia do comportamento. Ela propõe um modelo de relação pautado em respeito mútuo, disciplina consciente, escuta ativa, autonomia, empatia e conexão emocional genuína entre adultos e crianças.

Mas para que isso aconteça, é preciso atentarmos aos padrões que reproduzimos no “modo piloto automático”. A seguir, e a título de exemplo, vamos analisar algumas dessas frases repetidas geração após geração, identificando as crenças limitantes que elas carregam e como elas se contrapõem aos princípios da Educação Positiva.

1. “Os pais educam e os avós estragam!”

Crença: Educação é função exclusiva dos pais e o afeto dos avós atrapalha a disciplina.
Visão da Educação Positiva: A educação é uma rede que se fortalece com vínculos respeitosos.

Essa frase é dita com um certo humor, mas carrega um problema sério: a ideia de que o cuidado dos avós está em oposição à educação dos pais.

Mas será mesmo que carinho e afeto “estragam”?
Na Educação Positiva, entendemos que o afeto nunca é o problema — o problema é a incoerência, a falta de alinhamento e a ausência de limites claros e compartilhados entre os adultos.

Crianças precisam de previsibilidade. Quando aprendem que as regras só “valem” com algumas pessoas, desenvolvem comportamentos manipulativos e inseguros.
Além disso, essa frase pressupõe que os avós estão isentos de responsabilidades educativas, o que mina o potencial de uma convivência rica, afetiva e coesa entre gerações.

A Educação Positiva convida todos os adultos a dialogarem, combinarem acordos e formarem um círculo de confiança e respeito em torno da criança. A divergência de estilos pode existir, mas o respeito mútuo entre os cuidadores precisa ser o fio condutor da convivência.

2. “Filho(a) meu(minha)… [inserir julgamento]”

Crença: Amar é controlar.
Visão da Educação Positiva: Amar é permitir que o outro seja ele mesmo, com apoio e limites respeitosos.

“Filha minha não veste isso.” “Filho meu não chora.” “Se fosse meu filho…” Essas frases refletem a crença de que os filhos são uma extensão dos pais, e que seu comportamento precisa, obrigatoriamente, validar a identidade e os valores dos adultos.

Esse tipo de discurso sufoca a autonomia e inibe a expressão emocional da criança.
Com isso, ela cresce acreditando que precisa se encaixar em um molde para ser aceita — que não pode errar, experimentar, ser quem é.

A Educação Positiva reconhece a criança como um ser completo, com identidade, desejos e sentimentos próprios. O papel dos pais não é “formatar” alguém à sua imagem, mas guiar com presença, escuta e acolhimento, oferecendo limites firmes e afetivos sem apagar a individualidade do outro.

3. “Eu só queria que você conquistasse tudo o que eu não consegui!”

Crença: Os filhos existem para realizar as frustrações dos pais.
Visão da Educação Positiva: Cada ser humano tem o direito de trilhar o próprio caminho.

Muitos pais dizem isso com um certo orgulho por, finalmente, conseguirem vislumbrar a superação de uma frustração, dada a possibilidade de que se concretize algo muito desejado no passado.

Mas isso é um fardo. Não deveríamos projetar na criança sonhos que não são dela. Quando isso acontece, ela cresce com a sensação de que precisa compensar o que faltou aos adultos, e isso mina sua autoestima e espontaneidade.

Na Educação Positiva, aprendemos a acolher nossas próprias dores para não transferi-las às crianças. Filhos não são recomeços; são vidas com brilho próprio.

5. “Ser mãe é padecer no paraíso.”

Crença: O sofrimento é parte natural da maternidade.
Visão da Educação Positiva: Parentalidade consciente é construída com apoio e divisão de responsabilidades.

Essa frase romantiza o sacrifício materno e reforça um papel de gênero ultrapassado. Ela transforma a sobrecarga da mulher em algo natural, esperado e, até mesmo admirado – a falácia da mulher guerreira.

Acontece que ninguém educa bem quando está exausto ou oprimido por expectativas irreais.
E mais: quando esse discurso é repetido, as crianças internalizam a ideia de que o sofrimento feminino é normal, e que os cuidados domésticos e emocionais são “coisas de mãe”.

Educação Positiva valoriza o autocuidado, o equilíbrio emocional e a responsabilidade compartilhada. Ninguém educa sozinho. A parentalidade precisa ser construída em comunidade — com apoio, empatia e divisão justa das tarefas.

Interromper o ciclo

Como vimos, essas frases não são tão inofensivas quanto parecem. Elas fazem parte de um sistema de crenças que restringe nossa liberdade de educar com leveza, respeito e conexão. O primeiro passo para interrompermos esse ciclo é justamente prestar atenção ao que reproduzimos e ressignificar o que carregamos.

Sempre dá para fazer diferente. A educação não é uma fórmula pronta: é uma escolha diária por presença, afeto e consciência. Criar vínculos pautados no respeito mútuo potencializa não apenas o desenvolvimento das crianças — transforma também quem educa.

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