Vivemos imersos em um oceano de imagens. Elas nos atravessam o tempo todo, nas telas, nas ruas, nos livros, nos corpos. Mas será que elas ainda nos dizem algo? Ou apenas passamos a vida em scroll, como quem olha e não repara em nada?
Foi mergulhando nessas perguntas que decidi reler Philippe Descola, antropólogo francês e autor do livro As formas do visível: uma antropologia da figuração — obra que, desde sua publicação, tem provocado reflexões fundamentais sobre como diferentes culturas veem, representam e dão forma ao mundo. Em 2022, Descola recebeu o Grande Prêmio de Filosofia da Academia Francesa, um reconhecimento à importância de sua obra para o pensamento contemporâneo. Neste livro, ele nos convida a pensar as imagens não como ilustrações da realidade, mas como modos de existência, modos de conhecer e de se relacionar com o mundo.
Imagens não são só o que se vê
Descola nos mostra que nem toda imagem é “representação” no sentido ocidental. Para muitos povos, imagem é presença, é vida, é extensão do corpo, do espírito, da paisagem. É relação. Ele propõe uma classificação das formas de figurar (ou seja, de dar forma visível às coisas) baseada em quatro regimes ontológicos: naturalismo, animismo, analogismo e totemismo. Cada um deles carrega uma maneira específica de ver e produzir o mundo visual — e portanto, também, de educar o olhar. Isso muda tudo.
Pensar com Descola me faz querer reaprender a ver com os outros e através dos outros, inclusive com crianças, com professores, com artistas, com imagens esquecidas nos fundos das gavetas ou nas paredes das escolas. Me interessa uma história da arte que não seja só acadêmica, mas que passe pelo corpo, pelo afeto, pela experiência sensorial e pela escuta compartilhada.
Uma história da arte em que a leitura de imagens seja vivida, e não apenas estudada.
Por uma literacia visual sensível
No campo da educação, falar sobre literacia visual é mais urgente do que nunca. Como ajudar nossas crianças e jovens a desenvolverem um olhar crítico e sensível em meio à enxurrada de imagens que consomem — e que muitas vezes os consomem?
“Ler imagens” é mais do que identificar o que está nelas. É um exercício criativo, movido pela curiosidade e pelas nossas vivências: quem fez? para quem? a partir de onde? com qual intenção? o que sinto ao ver? como essa imagem me atravessa? que outras imagens ela me faz lembrar? que outras posso criar a partir dela? E por aí vai…
E aqui entra minha voz como historiadora de arte e psicopedagoga: quero contribuir para que educadores se sintam convidados a olhar para as imagens como pontos de partida para a co-criação de sentidos, não como objetos fechados ou conteúdos a serem “ensinados”. Quero pensar práticas educativas em que o ver esteja ligado ao sentir, ao imaginar, ao escutar e ao fazer junto.
Um mundo, muitos mundos
Trabalhar propostas como a de de Descola em sala de aula não é sobre “ensinar antropologia”, mas sobre abrir espaço para outras formas de ver e viver o mundo. É incentivar crianças, jovens (e a nós educadores também) a perceber que o jeito que aprendemos a olhar não é o único — e que podemos, com arte, escuta e afeto, aprender a ver de novo. Essa abordagem não exige fórmulas nem perfeição. Exige corpo presente, sensibilidade e disposição para co-criar com as imagens, com os alunos e com o nosso entorno.
Como desdobramento dessa reflexão, quero abrir um grupo de estudos, onde possamos pensar juntos o lugar das imagens na educação. A cada encontro, proporei a leitura de um texto — como este de Philippe Descola — e, a partir dele, construiremos em coautoria uma prática sensível inspirada na leitura.
Será um espaço vivo de escuta, invenção e troca — entre educadores, curiosos e corações inquietos.
Quer participar?
Se essa proposta despertou algo em você, continue a acompanhar os textos sobre o tema e me escreva ou acompanhe por aqui as informações sobre os encontros do grupo de estudos.
Até a próxima!








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