Encerrando este breve ciclo de textos sobre o desenvolvimento do desenho infantil no primeiro setênio, quero me debruçar agora sobre pormenores que, embora muitas vezes pareçam apenas algo decorativo ou “instintivo”, podem dizer muito sobre os processos internos da crianças.
Comecemos pelas cores. Falar sobre cor no universo da infância é sempre um terreno delicado. Não há consenso claro na literatura especializada sobre como e quando apresentar as cores às crianças pequenas. Alguns autores defendem uma introdução gradual, iniciando pelas cores primárias, de forma a favorecer descobertas genuínas a partir das experiências diretas. Outros evitam oferecer cores escuras, como o preto ou o marrom, por considerá-las inadequadas para a fase inicial do desenvolvimento.
E há também abordagens mais abertas, que oferecem toda a paleta desde o início, confiando na escolha espontânea da criança como caminho legítimo e necessário de expressão.
Diante de tantas correntes distintas, fica evidente que o mais importante não está em definir uma cartela ideal, mas sim em observar com atenção e escuta o que a criança faz com as cores. Nesse sentido, a prática pode ser mais reveladora do que qualquer teoria.
Quando o papel vira território
O que vemos em comum no desenvolvimento infantil e que apresenta relação com as cores é a realização de grandes “tapetes” coloridos ou monocromáticos, geralmente construídos das periferias do papel em sentido ao centro. Esses campos de cor não são meras brincadeiras estéticas. Costumam refletir algo do estado emocional da criança, da sua relação com o corpo e com o mundo ao redor.
A forma como ela organiza (ou não) o espaço, a intensidade do gesto, a repetição de certas cores… tudo isso os dá pistas sutis e importantes sobre o que está em movimento por dentro.

Céu, terra, sol: o mundo se organiza no papel
Outro marco significativo é a divisão da paisagem. Por volta dos 4 anos, a criança começa a estruturar o espaço de modo mais racional, distinguindo céu e terra, por meio da criação de um plano horizontal. Inicialmente, essa separação é exagerada — o céu ocupa o alto da folha, e a terra, uma faixa estreita na base. Com o tempo, essa distância se suaviza e ambos os planos passam a se integrar. A criança começa a habitar o espaço do papel com mais equilíbrio.
A figura do sol geralmente começa a ser desenhada do lado direito da folha e, aos poucos, vai migrando para o lado esquerdo. Curiosamente, quando ele “migra” para o lado esquerdo, esse pequeno gesto pode indicar que a criança está pronta para o processo de alfabetização. Isso tem relação com o amadurecimento dos hemisférios cerebrais — o esquerdo, associado à linguagem e à lógica, passa a assumir protagonismo por volta dos 7 anos de idade.

O arco-íris e o tempo da transição
Entre os 6 e 7 anos, é comum que as crianças desenhem arco-íris com frequência. Esse símbolo colorido e transitório parece representar uma espécie de ponte interna — um momento em que o cérebro ainda não diferenciou completamente seus hemisférios, e por isso a criança vive uma fase rica, mas confusa, entre o sentir e o organizar.
Durante esse período, letras e números espelhados são absolutamente comuns e não representam qualquer dificuldade cognitiva. São sinais do processo em curso — uma dança neurológica entre hemisférios, antes da estabilização necessária à alfabetização.
Dentes, gramados e bandeirinhas
Outros pequenos elementos também podem sinalizar fases importantes. Quando surgem espontaneamente no desenho — como gramados pontiagudos, passarinhos em forma de V ou bandeirinhas coloridas —, podem indicar o início da troca dos dentes de leite, um momento forte de transição física e energética no corpo da criança.

Interpretação sensível
É fundamental lembrar que tudo isso faz parte de uma entre muitas abordagens possíveis sobre o desenho infantil. Eu escolho trazer aqui essa leitura porque, dentro da minha experiência clínica e educativa, ela tem se mostrado coerente, sensível e profundamente reveladora.
O desenho, assim como o brincar, é uma linguagem rica, mas que exige de nós um olhar atento e empático, que não interpreta de maneira apressada.
Por isso, quero seguir esse caminho não sozinha, mas com outras pessoas dispostas a olhar, escutar, sentir e pensar juntos.
Convite para o grupo de estudos
Se esse tema despertou algo em você, fica o convite para participar de um grupo de estudos, onde vamos seguir refletindo sobre o desenvolvimento infantil por meio do desenho e dos seus símbolos.
A ideia é que possamos ler textos juntos, trocar experiências e também trazer desenhos do primeiro setênio, de nossas práticas ou vivências, para analisarmos em conjunto — sempre com cuidado, ética e abertura. Será um espaço de partilha, aprendizagem e experimentação, onde teoria e prática caminham lado a lado.
Quer participar? Me escreva ou acompanhe aqui no site para mais informações sobre os encontros. Vamos olhar para os desenhos não apenas como produções infantis, mas como cartas visuais que nos contam, silenciosamente, o que pulsa dentro de cada criança.








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