Como prometido, aqui estou novamente para continuar nosso breve percurso sobre o desenvolvimento do desenho no primeiro setênio. Já vimos, entre outros temas, as garatujas, os significados dos primeiros traçados, a influência da organização rítmica e metabólica, a formação do Eu e da figura humana. Chegou a hora de falarmos um pouco sobre a representação da casa.
A casa é um tema amplamente explorado pelas crianças e surge, inicialmente, para expressar a necessidade de cuidado por parte do adulto, a fim de que se sintam protegidas no mundo que começam a perceber como algo externo a elas, mas com grande capacidade de afetação interna. Por isso, os primeiros esboços costumam ser denominados, segundo Michaela Strauss, “a casa protetora”.
A criança se desenha envolta em uma esfera, pois, até por volta dos quatro anos, o círculo é a forma mais acessível motoramente — aquela que conseguem realizar com maior facilidade. Após conquistar um pouco mais de autonomia, essa cápsula começa a ser substituída por uma forma, ainda circular, que se assenta na borda inferior da folha.


Nesse ponto, começamos a acompanhar, então, uma espécie de transição, uma “mudança de moradia”: da casa circular para a casa cúbica, marcada por novas formas — quadrados e retângulos — que costumam ocupar a folha inteira, como uma moldura para o espaço interno que, agora, ganha merecida atenção. Com isso, surge a necessidade de enfeitar essa nova habitação. Móveis, a própria criança, pessoas próximas e tudo o que ela considera parte do seu lar costumam ser inseridos nessa grande “caixa”.

Esse novo movimento pode ser observado também nas escolhas de brincadeiras. Cabaninhas, barracas, esconder-se debaixo de mesas ou dentro de caixas de papelão passam a fazer parte do repertório dos quatro anos, de maneira bastante significativa e contextualizada — não apenas por curiosidade. A criança começa a perceber o seu meio com maior exatidão e distanciamento, e manifesta esse ganho através de perguntas cada vez mais realistas, pois precisa ampliar os conhecimentos prévios, que já não lhe são suficientes (por exemplo: “qual o tamanho dos bebês quando vão parar na barriga das mamães?”).
Há, portanto, uma mudança de interesses, resultante da intensa observação das atividades ao seu redor. Agora existe o entendimento sobre a organização da rotina diária, bem como das funções e profissões das pessoas. Aos membros da família são atribuídas essas novas descobertas, seja nos desenhos, seja nas brincadeiras de imitação. A atenção ao funcional é o que permite o acréscimo de detalhes nos desenhos. Na casa, por exemplo, mais do que apenas a porta, surge a maçaneta, que configura a ação do “abrir-fechar”, demonstrando maior controle e cuidado na relação com o mundo externo.
As janelas também começam a aparecer e, frequentemente, revelam a disponibilidade de interação da criança. Numa leitura mais psicológica, janelas abertas, que expõem excessivamente o interior da casa, podem indicar uma certa vulnerabilidade — a criança ainda não se sente suficientemente segura para lidar com algumas questões e necessita do apoio afetivo de um adulto. Já janelas com grades, cortinas ou persianas, que cobrem parcialmente a vista, podem indicar que ela se sente protegida e segura para lidar com o outro. Por sua vez, janelas sempre fechadas podem sinalizar certo embotamento afetivo, o que merece atenção e investigação. Quando aparecem pessoas na janela ou fora da casa, olhando para dentro, geralmente isso indica que a criança está em um momento de maior exploração do mundo externo — podendo, inclusive, desenhar a si mesma do lado de fora da casa.
É importante lembrar que devemos sempre considerar todo o contexto da criança, e não apenas o seu desenho. O velho clichê — “cada caso é um caso” — continua sendo plenamente válido. A avaliação da demanda da criança e seu devido acompanhamento devem sempre ser realizados por profissionais das áreas da saúde e/ou educação, que tenham conhecimento específico sobre o tema.
Por último, vemos surgir o telhado, geralmente representado por um triângulo, uma nova forma que a criança já é capaz de realizar. Já o caminho em frente à casa revela o início da noção de perspectiva, possível graças ao desenvolvimento da terceira linha de amadurecimento, que traz a percepção de frente e atrás.


Leitura indicada: Understanding Children’s Drawings – Michaela Strauss
No próximo post, finalizaremos a temática sobre o desenho infantil no primeiro setênio. Continuem a acompanhar.








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