Nesta terceira e última parte da série dedicada à representação da figura humana na linguagem gráfica infantil, seguimos observando as delicadas conquistas expressivas da criança. Chegou o momento de dar destaque aos membros — numa integração corporal que reflete a maturação dos gestos e movimentos. Braços, pernas, mãos e pés não apenas completam a figura, mas revelam, em traços espontâneos e por vezes exagerados, o corpo em descoberta. Cada desenho traduz uma etapa do desenvolvimento sensório-motor e emocional, numa dança entre percepção, ação e consciência.
Depois de um longo período de atenção concentrada no tronco — centro de vitalidade e base inicial da organização corporal — é a vez dos membros ganharem protagonismo. Aos poucos, eles se agregam ao corpo de forma cada vez mais integrada. Os braços, por exemplo, surgem com grande mobilidade desde as primeiras representações. Muitas vezes são desenhados desproporcionalmente grandes, como extensões dos órgãos dos sentidos, atuando sobre o mundo. Os dedos, por sua vez, aparecem como pequenas ramificações dessa mesma função exploratória. É comum que surjam em número exagerado ou incorreto, quase como antenas que captam os estímulos ao redor. Até os 6 ou 7 anos, essa forma de representação permanece, a menos que o adulto intervenha e corrija, o que não parte da criança espontaneamente.
Aos braços, começam a se somar detalhes que revelam um novo nível de refinamento motor. Por volta dos 5 anos, acessórios como pulseiras, luvas e outros elementos decorativos passam a aparecer nos desenhos. Isso coincide com a maturação da região metabólica-motora, que possibilita maior controle da coordenação e da força. Nessa fase, muitas crianças começam a desenhar com mais pressão e dentro de espaços menores e mais definidos. Ao mesmo tempo, demonstram inquietação física — um reflexo do corpo que quer experimentar suas novas capacidades. Paradoxalmente, é também quando mais se exige delas o domínio do corpo: sentar-se, conter-se, seguir regras, escrever. Um paradoxo doloroso, pois é justamente quando elas mais precisam explorar livremente essas aquisições recém-desenvolvidas.

Já os pés — a base do corpo — são os últimos a ganhar destaque nas representações. Isso acontece, em parte, pela pouca valorização do movimento amplo nos ambientes domésticos e escolares. Correr, saltar, equilibrar-se… essas experiências fundamentais nem sempre são incentivadas, o que retarda a consciência corporal da parte inferior do corpo. Por isso, é só por volta dos 6 ou 7 anos que os pés passam a ser desenhados com sapatos ou outras formas reconhecíveis e, ainda assim, raramente com dedos.
Com o amadurecimento do sistema nervoso autônomo, a figura humana representada passa a se reorganizar. Aquelas formas iniciais, conhecidas como “cefalópodes”, ganham novas roupagens. Os traços que antes se irradiavam para fora do corpo agora penetram a esfera corporal, simbolizando a percepção do centro vital — o plexo solar — frequentemente representado como umbigo no meio do tronco. É o corpo que se percebe por dentro.

Encerramos aqui a trilogia dedicada à representação da figura humana na linguagem gráfica infantil. Vimos como cada parte do corpo desenhado pelas crianças expressa um pouco de sua história interior e de suas vivências no mundo. Mas este é apenas um capítulo do vasto universo gráfico da infância. A linguagem gráfica infantil segue revelando múltiplas formas de expressão, que vão muito além da figura humana. Elementos da natureza, da casa, do imaginário e das relações sociais também emergem nos desenhos como partes essenciais do processo de simbolização e comunicação. Seguiremos, portanto, explorando outras temáticas e modos de representação, sempre atentos à riqueza do traço infantil como expressão legítima de pensamento, emoção e descoberta do mundo.








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