Linguagem gráfica infantil: a representação da figura humana (Parte 1)

Nos artigos anteriores (Garatujas), apresentei uma introdução necessária sobre o desenvolvimento inicial do desenho infantil. Esse percurso preparatório nos conduz, agora, a um ponto central no desenrolar do primeiro setênio.

O desenho da figura humana é de extrema importância, pois dele derivarão outras representações simbólicas, como a árvore, a casa, os animais e os meios de transporte.

É fácil compreender por que essa é, geralmente, a primeira imagem a surgir: a criança projeta no papel suas vivências e transformações internas — aquilo que lhe confere identidade, que a molda por dentro e que lhe permite, gradualmente, se reconhecer no mundo.

Desse modo, esse traço inaugural não revela apenas uma busca por si mesma, mas também a intensa relação que a criança estabelece com aqueles que a cercam — especialmente com seus cuidadores. Em suma, a figura do semelhante ocupa um lugar privilegiado nesse momento do desenvolvimento, sendo representada não apenas como espelho, mas como presença afetiva e constitutiva do ser.

Assim como o desenvolvimento infantil se dá no sentido de cima para baixo — da cabeça aos pés — e das regiões mais centrais para as mais distais do corpo, o surgimento da figura humana no papel também segue essa mesma lógica, revelando-se aos poucos, de forma orgânica e coerente com os movimentos internos da criança.

O desenho do círculo fechado, por volta dos três anos, que representa a consolidação da última sutura do crânio e a descoberta do “Eu”, logo passa a contar com uma estrutura vertical muito parecida com um tronco, que podemos identificar como a percepção, inconsciente, da coluna vertebral. Essa estrutura, que faz parte do aprimoramento do desenho da cruz, ganha um eixo mais certeiro e passa a ser denominada, por alguns autores, de “homem-árvore”. (Para melhor compreensão rever o texto sobre Garatuja Nomeada).

O círculo ganha olhos, boca e nariz e, então, é promovido a rosto, o qual permanecerá representado de frente até, mais ou menos, por volta dos 5 anos, quando os perfis começarão a ser trabalhados no papel.

A partir dos 4 anos, a variedade das expressões infantis desponta, e novas imagens da figura humana ganham formas. São os “cefalópodes” – cabeças com vários membros que se assemelham a sóis. Os raios que circundam a cabeça representam os órgãos do sentido que estão abertos ao entorno, como uma antena que captura tudo o que se passa ao redor. Por isso, é importante que o ambiente ofereça estímulos de maneira atrativa, saudável e equilibrada.

A partir dessas primeiras formas, a figura humana seguirá se desdobrando no papel, revelando nuances cada vez mais refinadas da percepção corporal, emocional e relacional da criança.

No próximo artigo, continuaremos a explorar esse processo tão expressivo, acompanhando as transformações que ocorrem por volta dos cinco anos — quando o corpo desenhado ganha novos detalhes, e a criança, novas maneiras de se reconhecer e de representar o outro.

Por enquanto, duas referências para quem gosta do tema:

Michaela StraussA linguagem gráfica da criança

Edith DerdykFormas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil

Até a próxima!

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