Nos artigos anteriores sobre o tema, conversamos um pouco sobre a importância da liberdade criativa e sobre os primeiros traçados infantis — a famosa garatuja — com foco no tipo desordenado. Agora, seguimos nessa jornada fascinante pelo universo do desenho infantil, explorando mais um pouco esse início da expressão gráfica e dando um passo à frente: uma introdução à fase seguinte, que geralmente ocorre entre os 3 e 5 anos de idade.
Antes de tudo, vale reforçar: as fases do desenvolvimento servem apenas como guia geral. Cada criança é única, e seus contextos, experiências e ritmos são igualmente importantes nesse processo. O desenvolvimento infantil não é uma linha reta — é mais como uma dança cheia de voltas e descobertas.
Da Garatuja Desordenada à Percepção de Intencionalidade
Depois de experimentar traços livres, desordenados, e muitas vezes marcados pela imprecisão dos primeiros movimentos, a criança — geralmente entre os 2 e 3 anos — começa a perceber algo mágico: aquilo que ela movimenta com a mão aparece no papel. Essa descoberta é um marco no desenvolvimento visomotor, onde os olhos passam a coordenar melhor os movimentos das mãos.
Essa fase é repleta de experimentações. A criança amplia o uso das cores (principalmente as primárias), intensifica a força dos traços, e começa a explorar mais conscientemente o espaço da folha. Ainda não existe uma intenção representativa clara, mas a criança, por iniciativa própria, começa a nomear o que desenhou — depois de pronto, e de acordo com o que sente ou imagina naquele momento.
Retas, Espirais e… a Cruz!
Duas formas gráficas tornam-se recorrentes: espirais e retas. As retas, em especial, ganham organização — ora verticais, ora horizontais — e começam a se cruzar, formando o que reconhecemos como uma cruz. E por que isso é tão especial?
A cruz é um símbolo do equilíbrio corporal conquistado, do controle motor mais refinado e da postura ereta mais firme. É como se a criança, por meio do desenho, estivesse dizendo: “Olha, eu estou de pé, e minhas mãos estão livres para explorar o mundo!” A partir dessas pistas visuais, podemos inclusive identificar saltos de desenvolvimento.
Por exemplo, se notamos que os traços antes soltos agora se cruzam, e isso coincide com mudanças no comportamento (como sono mais tranquilo, ou novas habilidades surgindo), é possível que esse seja um indício de amadurecimento neuropsicomotor.
Do Espiral ao Círculo: Um Novo Universo
As espirais, por sua vez, evoluem. Com o tempo, elas dão lugar à forma mais simbólica do desenho infantil: o círculo. E ele chega por volta dos 3 anos.
Aqui é onde começa a verdadeira magia. A união de círculos com pontos ou cruzes dentro deles representa uma das conquistas mais lindas do desenvolvimento simbólico: a percepção do EU. A criança já não se vê mais totalmente fundida ao mundo. Ela começa a se reconhecer como alguém separado — e isso é imenso! É o início de uma consciência mais estruturada de si mesma.
Mas atenção: incentivar a criança a “pular etapas”, antecipando falas ou traçados que ainda não fazem sentido para ela, pode acabar empobrecendo essa construção simbólica. O desenho sempre revela o que foi genuinamente conquistado.
Chegamos à Garatuja Nomeada
E então, entramos na fase da garatuja nomeada. Aqui os traços ganham mais organização no papel, e os primeiros esquemas da forma humana começam a aparecer. A criança agora anuncia o que vai desenhar e verbaliza com orgulho o que cada forma representa. É o início de um desenho com intenção — ainda simples, mas cheio de significado.
No próximo artigo sobre desenvolvimento do desenho infantil, vamos aprofundar essa fase e observar como o desenho humano começa a ganhar contornos mais definidos.
Até lá, e que possamos continuar encantados com o que o traço infantil tem a nos contar.








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