Cuidar de Si é o Primeiro Passo para Cuidar do Outro

O livro Quando o corpo diz não, do médico especialista em desenvolvimento infantil Gabor Maté, chegou até mim em um momento crucial: era hora de colocar em prática o que eu já conhecia na teoria. Mães, profissionais da saúde, professores, educadores e cuidadores, de modo geral, tendem a se sobrecarregar para atender às necessidades alheias. O problema é que, ao não se colocarem como prioridade, acabam adoecendo. Foi exatamente o que vivi e, a partir dessa experiência, compreendi a importância de olhar para quem cuida antes de atender às demandas das crianças.

Gabor Maté explica que as doenças, nesse contexto, não surgem por acaso. Há padrões observáveis nas doenças crônicas, frequentemente ligados a traços de personalidade e comportamento – muitas vezes inconscientes. Ou seja, a pessoa não percebe que está se prejudicando. Em suas palestras, Maté cita um estudo que analisou o telômero (a região do DNA associada ao envelhecimento) e revelou que o telômero das mães que cuidavam de crianças com deficiência era, em média, 10 anos mais curto do que o de mães que não viviam sob o mesmo estresse crônico. Ou seja, o impacto do autocuidado negligenciado é real e mensurável.

Isso não significa que devemos deixar de cuidar dos outros, mas é essencial refletirmos sobre como fazemos isso. Maté identificou padrões comuns entre aqueles que adoecem por sobrecarga, como priorizar excessivamente as necessidades alheias, ignorando as próprias; reprimir a raiva e evitar conflitos a qualquer custo; e assumir tantas responsabilidades que acreditam ser os únicos capazes de resolver tudo.

A sociedade reforça esse comportamento, valorizando pessoas que se dedicam ao trabalho até o limite da exaustão – o chamado Burnout. Ser produtivo, mesmo doente, é visto como uma virtude. Não é à toa que muitos se sentem desvalorizados quando tentam desacelerar. Como destaca a professora Lúcia Helena Galvão, desde pequenos aprendemos a relacionar nossa identidade à profissão, e não aos nossos valores. Isso gera uma cultura de competitividade, na qual as tarefas são priorizadas em detrimento do bem-estar individual. O medo de desapontar os outros também faz com que muitos assumam responsabilidades excessivas em busca de reconhecimento.

O sentimento de raiva, quando negligenciado, pode gerar dois tipos de comportamento: a pessoa o retém para si, aparentando estar sempre bem, ou reage de maneira exagerada em circunstâncias que, à primeira vista, não justificariam tamanha explosão emocional. Sentir raiva é algo natural; o problema está no jeito como lidamos com ela. Expressá-la de forma adequada, em ambientes seguros como a terapia, ajuda a reduzir a tensão e a pensar com mais clareza. O mesmo vale para as crianças: uma bronca em um momento de estresse pode agravar o cenário, gerando culpa e desequilíbrio emocional.

Outro ponto abordado no livro é a separação entre tratamento físico e emocional na medicina. Muitas vezes, a causa da doença é psicológica, mas o foco está apenas na reabilitação física. Isso reflete uma sociedade que, ao mesmo tempo em que valoriza o sofrimento em nome da produtividade, também patologiza as emoções. Em outras palavras: tudo que nos afaste da produtividade deve ser medicado.  Sentir tristeza, por exemplo, é tratado como algo a ser evitado a qualquer custo, quando, na verdade, as emoções desempenham um papel fundamental: elas nos ajudam a reconhecer situações saudáveis e a manter distância daquilo que nos faz mal. O sistema imunológico tem uma função semelhante. Assim, uma doença crônica pode ser a forma do corpo dizer “não” quando não conseguimos fazer isso conscientemente.

Mudar pode gerar conflitos, pois as pessoas ao seu redor estão acostumadas com o seu jeito de ser. No entanto, isso também pode revelar quem realmente está disposto a apoiá-lo. Talvez um amigo se alegre ao ver que você finalmente começou a se priorizar.

Você também pode se questionar por não ter percebido antes esse padrão de comportamento. No entanto, a jornada de aprendizado e autoconhecimento é essencial. Autocuidado não é egoísmo, mas um ato de gentileza consigo mesmo e que impacta positivamente os outros. Um cuidador que se respeita serve de modelo para uma educação baseada na autenticidade e no amor-próprio, em vez da repressão e do autoabandono.

Não podemos dissociar o indivíduo do seu contexto. Tudo está conectado, e a consciência desse processo nos ajuda a identificar os gatilhos que nos fazem abrir mão da nossa autenticidade. Somente trazendo isso à consciência seremos capazes de mudar e encontrar um caminho mais equilibrado e saudável para cuidar de nós mesmos e, também, dos outros.

Deixe um comentário