Garatuja: a Linguagem Gráfica Inicial

O lápis torna visível o que anteriormente a criança “escrevia” no espaço dançando: é coreografia – linhas de vitalidade rítmica e dinâmica. (Michaela Strauss)

Aprender sobre o desenvolvimento do desenho no primeiro setênio agrega muito mais ao nosso conhecimento sobre o universo infantil do que podemos imaginar. Uma informação que nem todos conhecem é que, nos primeiros sete anos de vida, ao ter o primeiro contato com um lápis ou qualquer outro objeto usado para desenhar, a criança, quando livre para desenvolver seu próprio processo criativo, começará pelas garatujas. Se for uma criança maior, essa fase será percorrida rapidamente, mas, ainda assim, seguirá todas as etapas até atingir o estágio correspondente ao seu desenvolvimento. O desenho na primeira infância, apesar de apresentar características individuais, tende a seguir princípios comuns em diferentes culturas.

Esse fato foi comprovado por Rhoda Kellogg, que, ao estudar 300 mil produções infantis, identificou padrões recorrentes de estruturas, como traçados e suas disposições no papel.

Vamos conhecer melhor esses primeiros traços?

Garatuja

Garatujas são cartas que as crianças escrevem para si mesmas. (Goethe)

O termo “garatuja” foi cunhado por Viktor Lowenfeld para designar os primeiros rabiscos produzidos pelas crianças, marcados por traços desordenados e sem nexos aparentes. Esses registros surgem da necessidade e do desejo infantil de se expressar graficamente.

O interesse pelo desenho geralmente desperta por volta dos dois anos e se transfere para o papel em um ensaio ainda incipiente de tudo o que está por vir. Em consonância com o desenvolvimento neuropsicomotor, as primeiras produções são compostas, sobretudo, por riscos, traços arqueados amplos e linhas sinuosas. A criança leva ao papel sua experiência corporal, utilizando a articulação do ombro e, muitas vezes, o corpo inteiro como apoio para o movimento do desenho.

Nessa fase, os traços podem variar de extremamente leves, quase imperceptíveis, a tão intensos que chegam a perfurar o papel. Com a coordenação motora e a lateralidade ainda em desenvolvimento, as crianças mudam frequentemente a maneira de segurar o lápis e até mesmo a mão dominante para o traçado. A produção, nesse momento, tem mais função expressiva do que representativa, atuando como uma válvula de escape para necessidades intrínsecas.

Quando a criança finaliza sua composição, geralmente não demonstra muito interesse pelo resultado obtido, apesar de ficar feliz com a devolutiva do adulto. Se perguntarmos o que desenhou, sua resposta pode variar com o tempo. Inicialmente, pode dizer-nos que desenhou uma bola, por exemplo, ou qualquer elemento familiar ao seu contexto. No entanto, se questionada novamente, depois de algum tempo, sua resposta pode mudar completamente. Isso ocorre porque, nessa fase, ainda não há uma capacidade associativa estabelecida, que é essencial para a consolidação desse processo descritivo.

O mais importante é permitir que essa expressividade flua livremente. Quando o adulto proporciona esse espaço, testemunha uma criança imersa em sua descoberta, entregue aos ritmos que surgem no papel e completamente envolvida no movimento do desenho.

Para finalizar, trago a ideia de garatuja proposta por Georges-Henri Luquet, um dos pioneiros do estudo do desenho infantil. Segundo ele, esse trabalho involuntário, que para o adulto pode parecer insignificante, representa para a criança a materialização de sua atividade, a expressão de sua personalidade, uma verdadeira criação. A consciência de seu poder criativo fortalece sua autoestima e lhe proporciona um prazer genuíno, incentivando-a a repetir a experiência e, consequentemente, a fortalecer suas conexões neurais.

Mais do que rabiscos, as garatujas são, portanto, o testemunho gráfico de novas habilidades em desenvolvimento e, por isso, merecem toda a nossa atenção.

“Se gostou do conteúdo, fique atento! Em breve, exploraremos ainda mais a temática do desenho infantil.”

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