Para promover o desenvolvimento harmonioso da criança, é essencial que pais, professores e educadores compreendam as transformações pelas quais ela passa. No entanto, diante das inúmeras demandas do cotidiano e da pressão para atendê-las com excelência, muitas vezes deixamos de perceber as lições profundas e a magia que a educação infantil oferece. É comum que pais relatem como as necessidades emocionais dos filhos frequentemente despertam questões internas ainda não resolvidas. Enxergar episódios de birra e outros desafios emocionais como oportunidades para contribuir tanto com o crescimento da criança quanto com o próprio amadurecimento, pode transformar a relação afetiva. Esse vínculo, fortalecido por empatia, confiança e segurança, favorece a construção de uma base neurológica saudável que influenciará a criança ao longo da vida.
A integração cerebral
Primeiramente, é importante entender que o sistema nervoso humano funciona por meio da integração cerebral. Mas o que isso significa?
A integração cerebral é a capacidade de conectar e sincronizar diferentes áreas do cérebro para que trabalhem em harmonia. Por exemplo, enquanto o hemisfério direito processa emoções e sinais não verbais, o esquerdo lida com lógica e organização do pensamento. Essa integração é essencial para o desenvolvimento de habilidades como memória, concentração e coordenação motora. Ela ocorre por meio de redes neurais que se formam e se fortalecem continuamente durante a infância – um período marcado pela alta plasticidade cerebral. Quando essas redes estão bem estruturadas, o cérebro funciona de maneira equilibrada e eficiente.
Como as experiências moldam o cérebro – sejam positivas ou traumáticas – e são armazenadas como memórias que influenciam as nossas atitudes até serem ressignificadas; pais e educadores devem estar atentos a reações exacerbadas. Tais respostas podem indicar o predomínio de um hemisfério cerebral sobre o outro, por exemplo. Identificar esses sinais permite restabelecer o equilíbrio de maneira saudável, utilizando estratégias que favoreçam o funcionamento eficaz do cérebro da criança.
Como lidar com situações de medo e frustração?
Imagine o seguinte cenário:
Uma criança que adorava nadar passa a recusar voltar à piscina após engolir água durante uma aula de natação.
Nesse caso, o medo é uma reação ao evento traumático. Mesmo que o incidente tenha sido breve e aparentemente inofensivo, ele pode ter causado um impacto emocional significativo para a criança. Esse medo pode se manifestar em birras intensas, como choro, gritos ou resistência física, quando os pais ou professores tentam incentivá-la a retornar às aulas.
O que fazer para ajudar?
Em primeiro lugar, nunca devemos minimizar o que a criança sentiu com frases como “não foi nada” ou sugerindo que ela simplesmente esqueça a experiência. Segundo Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson, emoções reprimidas tendem a se manifestar de diferentes formas, muitas vezes percebidas pelo adulto como reações exageradas. Quando o medo não é verbalizado e processado pelo lado racional do cérebro, ele sobrecarrega o lado emocional, que reage conforme suas limitações.
O ideal é estar disponível para que a criança relate o ocorrido tantas vezes quanto for necessário. Recordar os detalhes da situação ajuda a aliviar a sobrecarga emocional, a fortalecer a conexão entre os hemisférios cerebrais e a restaurar o equilíbrio neurológico. Dessa forma, evita-se que uma fobia se desenvolva.
A importância de ressignificar momentos difíceis
Crianças pequenas costumam demonstrar preferência por certos livros ou filmes, repetindo-os inúmeras vezes até escolherem algo novo. Essa repetição ocorre porque a história que contam trazem lições implícitas que ressoam com a sua experiência e, por isso, precisam ser assimiladas. Se essa necessidade já é evidente de maneira indireta, ela se torna ainda mais intensa em situações diretamente vivenciadas.
Até os adultos, ao passarem por frustrações como desentendimentos ou contratempos, sentem necessidade de revisitar o ocorrido, reviver detalhes e refazer diálogos até conseguirem processar a experiência. Para as crianças, essa demanda é ainda mais forte.
Voltando ao exemplo da natação, um diálogo acolhedor ajudaria a criança a relembrar o que aconteceu antes de engolir água, reconhecer o quanto foi assustador e revisar o contexto, trazendo à memória as pessoas ao redor, o apoio recebido e os sentimentos experimentados. O objetivo é reforçar a sensação de segurança para que, em um segundo momento, ela possa resgatar os aspectos positivos que a faziam gostar das aulas.
É claro que, em situações que exigem respostas rápidas ou que envolvam desrespeito a limites – como atitudes autodestrutivas ou agressivas em relação aos outros –, o adulto não deve ser negligente ou permissivo. No entanto, sempre que possível, essas oportunidades podem ser usadas para fortalecer o desenvolvimento emocional e a integração cerebral da criança.
Se o adulto perceber em si mesmo sinais de irritação ou impaciência ao lidar com alguma demanda emocional da criança, é importante esperar por um momento mais tranquilo para retomar a conversa. Isso permite que a criança seja acolhida com respeito, sem o risco de seus sentimentos serem invalidados. Essa abordagem demonstra empatia e cria um ambiente seguro para o aprendizado emocional.
Em publicações futuras, exploraremos outras estratégias práticas para apoiar o desenvolvimento saudável das crianças.







